Eu sempre acordo uns 15 minutos antes de sair, com o tempo milimetricamente cronometrado pra fazer xixi, lavar o rosto, escovar os dentes, trocar de roupa, sair e trancar a porta de casa. Mas ontem acordei cedão e aproveitei pra fazer um monte de coisas que nunca faço de manhã, tipo tomar um banhão de duas horas (sorry, ambientalistas), secar o cabelo com secador (?), fazer café da manhã – e até tomá-lo em casa – etc.
Aproveitei pra assistir um telejornal matinal do SBT, desses bem simplórios, praticamente o café com leite dos telejornais. Me chamou a atenção a cobertura das mil e uma invasões da Via Campesina: uma área da Votorantim no Rio Grande do Sul, outra da Vale no Maranhão, uma usina da Cosan em São Paulo etc. Não se falou sobre o que levou as mulheres a protestar, só se ressaltava que estavam todas mascaradas, armadas de foices e facões, causando tumulto, destruindo o patrimônio privado, queimando toras que gerariam papeizinhos inocentes. E claro que aproveitaram pra botar no meio a questão do repasse de dinheiro público ao MST. E claro que todos os meios de comunicação que vi seguiram essa mesma linha.
(1) Não vou defender Via Campesina/MST porque meus conhecimentos sobre o assunto são parquíssimos; (2) já é matéria dada que imparcialidade não existe; (3) os jornais, canais de tv etc estão mais de direita do que nunca. Mas por deus, custa falar um pouco sobre a motivação das invasões, só pra não ficar tão chato? Olha só uns trechos da carta do MST falando sobre a Aracruz.
A empresa se apropria de recursos públicos, mas nao gera nem garante empregos, destrói o meio ambiente e não contribui para o desenvolvimento nacional. Para salvar a Aracruz da falência, o governo repassou, via BNDES – com recursos do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) – R$ 2,4 bilhões para o grupo Votorantim comprar ações da Aracruz. Mesmo com os recursos de amparo ao trabalhador, a empresa não garante emprego, e já demitiu mais de 1500 trabalhadores terceirizados.
A empresa Aracruz Celulose é uma das principais representantes do agronegócio no país. Concentra cerca de 300 mil hectares de terras, sendo parte devolutas, ou seja, pertencentes ao Estado, com monocultura de eucalipto. Boa parte dessa área foi tomada de comunidades indígenas, quilombolas, pescadores e ribeirinhos. Nessa mesma quantidade de área poderiam ser assentadas cerca de 20 mil famílias, gerando empregos no campo e produção de alimentos para as famílias assentadas e das cidades onde a empresa está instalada.
A fábrica de Barra do Riacho, ao lado porto ocupado, consome 248 mil metros cúbicos de água por dia, equivalente ao consumo diário de 2,5 milhões de pessoas. Parte do Rio Doce foi desviado para atender aos interesses de duplicação da produção da empresa, e não foram observados com seriedade o impacto desse desvio para a região.
Não dá mais pra voltar à Idade Média e retroceder os avanços tecnológicos que rolaram até agora, nem dá pra acabar com todas as empresas, multinacionais, bancos blablabla. Mas custa elas pensarem um pouco menos no cu delas, que só caga dinheiro, pra levar um pouco em conta as pessoas e o entorno que sofrem com seu impacto? Custa, né… esse que é o problema!