outubro 16, 2009 · Comentários, Textos meus · 5 comments

Vejo cada vez mais gente escrevendo sobre o individualismo exacerbadíssmo dos nossos tempos. É um assunto que me interessa bastante e que me cutuca  há muitos anos, quando diariamente eu queria sair dando bica em quem estacionava na frente da porta do metrô e atravancava a passagem. São mil variações do mesmo tema: fulano que se escora no balaústre inteirinho, que desrespeita os assentos reservados, que não dá passagem no trânsito a alguém que pede cordialmente, que te fecha e se enfia na sua frente só porque ligou a seta… é a mulher que se entope de perfume e te impõe o cheiro dela, o idiota que liga o som do carro numa altura ensurdecedora e te obriga a ouvir a música dele. É o cocô de cachorro de madame que não foi limpado, é a celebridade que pisa e quase esmigalha seu pé numa festa, olha pra sua cara e não pede desculpa, porque você não é ninguém (essa já aconteceu comigo).

Eu poderia ficar até as Olimpíadas de 2016 (pfff) citando situações semelhantes que acontecem a todo momento, em todos os graus, em todos os lugares – bem, não fui à Birmânia pra saber, mas vocês entenderam: situações fruto do pensamento arraigado à cultura da qual participamos. Juro que não consigo entender como as pessoas podem agir assim. Pra mim, é TÃO óbvio que vivemos no meio de milhões de indivíduos, que a situação é delicada e que, se não tivermos parcimônia e não agirmos com justiça, a coisa não vai funcionar de uma forma mais organizada, harmônica e eficaz para TODOS. Por isso, eu bem que tento ter atitudes corretas e não-umbiguistas em relação ao máximo de itens que eu puder.

Claro, não posso deixar de mencionar aqui que sou um cerumano regido por seus hormônios, pela lua, pela relatividade do cosmos, pela flutuação do câmbio, pela saída da cama com o pé esquerdo, enfim, por motivos muitas vezes osbscuros e parciamente desconhecidos – como qualquer cerumano. Volta e meia fico puta com o fulano que usa egoisticamente seu escudo de metal (vulgo carro – deve ser parte integrante do seu kit de super-herói) pra se enfiar na minha frente, como se fosse óbvio que ele tem esse direito. Aí mando pra puta que pariu, não dou passagem, se possível ainda arrumo briga. Um dos meus objetivos de vida é exercitar a tolerância e a paciência pra poder viver melhor nesta selva, mas muitas vezes não dá. Não rola meeesmo.

No Saturnália, uma das minhas leituras diárias, fizeram um mini muro das lamentações com essa temática ontem. O Leonardo Boff publicou hoje um artigo sobre o individualismo. Na Folha Equilíbrio de ontem, dois textos (um da Roseli Sayão, educadora, e outro da Dulce Critelli, terapeuta) abordaram a falta de espírito de coletividade entre as pessoas. Aliás, transcrevo aqui um trecho desse último, digníssimo de nota:

O que nos falta é o sentimento de termos um mundo em comum. Não nos sentimos pertencer, em conjunto, ao mesmo mundo. Por isso, problemas da realidade, aí fora, não nos afetam.
Assim, entendemos que os problemas do país são de responsabilidade dos políticos, os de saúde, da alçada dos médicos… Reconhecemos como nossos somente os problemas que nos afetam diretamente.
Parecemos viver dentro de bolhas particulares. A perda do sentimento de pertencermos a um mundo comum nos mantém isolados uns dos outros e cada vez mais incomunicáveis.
A violência urbana e a dinâmica do universo profissional corroboram com isso. Exercemos, hoje, muito melhor a competição do que a solidariedade. O problema maior é que, quando perdemos o sentido de um mundo em comum, ficamos mortalmente atingidos na nossa condição humana. Os homens não foram criados para que vivessem sozinhos.

Percebem que são quatro textos com abordagem bem semelhante, publicados quase simultaneamente? Então menos mal, eu não devo ser a única que pensa nisso. E, a exemplo dos textos que não param de pipocar, talvez a quantidade de gente que preza por essas questões esteja aumentando. Agora, a pergunta de um milhão de doletas: como ajudar a conscientizar o resto do mundo?

agosto 13, 2009 · Comentários · 4 comments

Amor, promete pra mim
Que a gente nunca vai morar na Chácara Klabin?

Arquitetura Neoliberal (ou Como devastar uma cidade sem bombas)
Espetacular amarração de vários pensamentos sobre a cidade grande – aposto que muitos deles já passaram pela sua ou pela minha cabeça. Recomendo ler na íntegra, não é muito maior do que os trechos colados aqui embaixo.

Se a cidade de São Paulo foi chamada pelos modernistas de 22 de autofágica, renovando-se através de um contínuo processo de destruição criadora, a metáfora mais apropriada hoje em dia talvez fosse a de cidade-metástase, onde bairros inteiros são destruídos para dar lugar a megacondomínios isolados e auto-suficientes, e ruas cheias de vida dão lugar a ruas mortas.

As ruas, antes espaços de sociabilidade e de convivência, agora estão imundas, pichadas, inseguras, inóspitas e sem vida, tornaram-se apenas local de passagem.

Hermética separação com o mundo exterior através de uma variedade de barreiras físicas (a chamada arquitetura do pânico), e conseqüente ausência de diálogo com o entorno; rígida segregação social e funcional – tais empreendimentos são exclusivamente residenciais e voltados exclusivamente para as classes mais abastadas; utilização de enormes espaços urbanos para a moradia de uma quantidade pequena de pessoas; privilegiamento do acesso por automóvel em detrimento do acesso de pedestres, grande destaque dado ao automóvel em geral, com generosa oferta de vagas de garagem; uma tentativa de se destacar do entorno, de chamar a atenção, de aparecer, tanto através de seu tamanho conspícuo, como através de fachadas vistosas e empetecadas no chamado estilo “neoclássico”, que também buscam conferir uma pretensa sofisticação ao imóvel e seus ocupantes; oferta de uma prodigiosa gama de “amenidades” – algumas de utilidade duvidosa – aos seus ocupantes, com a pretensa finalidade de tornar o GVL o mais auto-suficiente (e portanto independente da cidade) possível, todas elas com nomes em inglês ininteligíveis para mortais comuns, tais como “day care”, “fitness center”, “garage band”, “kids room” “teen lounge”, “dog space”.

Grades, seteiras, fossos, lanças e arames farpados que remetem a uma imagem medieval complementam-se com equipamentos de alta tecnologia, como câmeras, sensores infravermelhos e torres blindadas.

É de se perguntar até que ponto esse tipo de vida tem relação com o surgimento de monstros como os adolescentes da Barra da Tijuca, todos eles moradores de condomínios de luxo, que espancaram – por diversão – e roubaram uma jovem que trabalhava como empregada doméstica num desses condomínios. (…) Na verdade, quando as pessoas têm noções frágeis de interesse público, responsabilidade pública e respeito pelos direitos de outras pessoas, é improvável que venham a adquirir essas noções dentro dos condomínios. Pelo contrário, a vida dentro dos universos privados só contribui para enfraquecer ainda mais suas noções de responsabilidade pública.

Os guetos verticais de luxo estão dentro das cidades mas não fazem parte delas, estão de costas para elas, estão em permanente conflito com elas. Procuram sugar o máximo possível das cidades sem dar nada em troca a não ser problemas ambientais, congestionamentos, medo, insegurança, abandono do espaço público e caos – em outras palavras, uma relação parasitária.

A bolha imobiliária de São Paulo, que consagrou a arquitetura e o urbanismo neoliberais, tem data de nascimento determinada: a aprovação do atual Plano Diretor, no final de 2002. A licenciosidade urbanística autorizada, incentivada e exaltada por esse Plano e que merece ser qualificado, na melhor das hipóteses, como ultraneoliberal, chegou a níveis tão prodigiosos que uma das tímidas medidas ensaiadas pela atual administração para abrandá-los (e que sequer chegou a ser aprovada), determinava que megacondomínios com mais de 50.000 m² teriam que abrir ruas públicas em seu interior.

Na verdade, o neoliberalismo consiste na volta da lei da selva, da lei do mais forte, que no caso é aquele que tem mais dinheiro: os privilégios de uma minoria se sobrepõem aos direitos individuais e coletivos da esmagadora maioria, em resumo, os que estão em cima pisam nos que estão embaixo. Isso vale inclusive para a relação dos donos do poder e do dinheiro para com a classe média, cujo poder também se viu esvaziado pelo neoliberalismo.

Das 10 ações com maior queda em 2008, três são de construtoras. Avassaladas por um nível de endividamento impagável, e assistindo ao mercado consumidor desaparecer como uma miragem, várias delas agora se encontram a um passo da falência – para citar apenas um exemplo, uma delas, responsável pela destruição do mais importante casarão do bairro de Vila Mariana, situado na R. Vergueiro, e que num gesto de marketing desesperado, apregoa como tábua de salvação sua compra por um ex-bilionário espanhol – falido. E num gesto tipicamente neoliberal, elas que pregavam a não intervenção do Estado em seus assuntos (a não ser, é claro, para beneficiá-las), agora clamam por pacotes de ajuda do governo, contando com a eterna boa vontade para com eles de seus amigos (leia-se serviçais) no Executivo e no Legislativo.

maio 14, 2009 · Comentários · (No comments)

http://www.nytimes.com/2009/05/12/science/earth/12suburb.html?_r=3&pagewanted=2

Fiquei pensando, essa iniciativa partiu do governo? Dos moradores? Dos aliens marcianos que ali aterrisaram? Aí achei:

http://empauta.org/2009/01/15/036-ecobairros-uma-nova-abordagem-para-o-espao-urbano/

Através da contribuição dos vários participantes interessados desenhou-se um projeto ambicioso para Vauban, um bairro de curtas distâncias, energeticamente sustentável.  A execução do projeto começou em 1997, inspirado no conceito da “cidade-jardim” (século XIX), integrando um conjunto de princípios-chave: preservação das características naturais do local (árvores centenárias e um riacho); integração de espaços verdes públicos; definição de cotas de terreno com pequenas dimensões; e edifícios com no máximo 4 andares.

Beleza, começaram do zero! Agora quero ver pegar o bonde andando e fazer isso com São Paulo!