Quantas coisas podem ser feitas em três semanas sem internet? Ler um livro e meio, organizar todos os gigas de mp3 no iTunes, encontrar pessoas ausentes por anos, fazer dois cursos de curta duração, voltar à capoeira, assistir o enésimo filme do mês, pegar o primeiro frila da vida do desemprego, ir a um show e ouvir as músicas preferidas, assistir a uma boa peça de teatro (raridade)? E sempre com aquele lance de que, quando a gente tá com um assunto recorrente na cabeça, ele fica se confirmando toda hora pelas coisas aleatórias que vão pipocando no nosso caminho.

Timothy Treadwell: Most times I am a kind warrior out here, occasionally I am challenged, in that case the kind warrior must must must become a samurai.

Clarice Lispector: a bondade é um pedaço de carne morna e leve, cheirava a carne crua guardada há muito tempo. Sem apodrecer inteiramente apesar de tudo. Refrescavam-na de quando em quando, botavam um pouco de tempero, o suficiente para conservá-la um pedaço de carne morna e quieta.

Céu: Don’t take my kindness for weakness!

Bretch: como ser bondoso sem submeter os próprios desejos – e necessidades – à ganância alheia?

Muito assunto pra botar em dia. Segura!

fevereiro 12, 2010 · Comentários, Textos meus · 1 comment

Claudia Leitte na capa da Rolling Stone

Não me diga, Claudinha! Tá ficando espertinha, hein?

PS. Ao ver uma bolsinha Louis Vutton cujo preço ultrapassa os quatro dígitos estampada nas sugestões de compras da revista, a única conclusão plausível é que a Rolling Stone é a Caras do mundo da música, correto?

fevereiro 10, 2010 · Imagens minhas, Textos meus · 4 comments

Imagine que você está fazendo o jantar, liga a tevê e o William Bonner fala que os extrarrestres invadiram a Terra. Você não acredita, entra em pânico, olha para a rua e o caos começa a tomar conta da cidade: pessoas correndo, lojas fechando. Em pouco tempo os ETs aprendem a se comunicar com os terráqueos, daí identificam os políticos, policiais, coronéis e todas essas pequenas autoridades focaultinanas e começam a negociar a compra e posterior abdução de cidadãos comuns, que são levados como mão de obra barata para trabalhar na expansão de galáxias longínquas.

Dias depois o telefone toca, é sua mãe, ela te conta do primeiro conhecido a ser abduzido: o cunhado do vizinho da sua tia. No dia seguinte, você descobre que alguns colegas de trabalho do andar de baixo que faziam hora-extra na noite anterior também foram levados. Depois, um conhecido seu da época de faculdade e toda sua família são levados e separados em três naves distintas, que seguiam para galáxias trilhões de anos-luz distantes entre si. Por fim, o primeiro amigo seu, pessoa que você realmente ama e quer bem, é abduzido também. Você chora, se revolta, sua vida nunca mais será a mesma sem ele. Não se sabe direito pra onde ele vai, se um dia ele vai voltar, não se sabe nada.

Num dia aparentemente mais calmo, você aproveita para ir visitar sua avozinha que não vê há semanas. Além de falar bastante sobre todo o caos do planeta Terra, vocês também falam sobre amenidades, ela te conta sobre o jardineiro folgado que deixou o serviço mal-feito e cobrou os olhos da cara, essas coisas. Afinal, a vida continuou como deu. Aí você começa a ouvir um barulhinho estranho na porta, parece que tem alguém tentando desparafuzar a fechadura, você sente um arrepio na espinha: são eles. Instrumentos eletroeletrônicos totalmente desconhecidos, com feixes de luz e energias de frequências improváveis, te imobilizam e te levam diretamente para a nave. A última cena do Brasil que fica na sua cabeça é o choro desesperado da avozinha, deixada pra trás por já ser idosa e não gozar de suas plenas capacidades físicas e mentais.

A viagem na nave espacial leva semanas. Os humanos são transportados em condições deploráveis, têm que dormir agachados, passam muito frio, muitos adoecem e morrem, outros enlouquecem já no trajeto. É o começo de muitas brutalidades, como o ambiente inóspito das galáxias desconhecidas, a hostilidade dos ETs, a jornada de trabalho de 20h diárias a que seriam submetidos e a mesma tortura que já havia sido vista nas aulas de história. Os ETs sabiam que só um humano pode  imaginar o que de pior se pode fazer a outro humano – tronco, garrote, eletrochoques, estupros múltiplos, empalamento, hipotermia por imersão no gelo…

Mesmo nessas condições, você e os outros humanos vão tocando a vida com força e esperança de um dia voltar pra Terra. Enquanto isso, se viram como podem e, mesmo proibidos, os brasileiros dão um jeito de sambar escondidos e ensinar a dança aos descendentes nascidos na nova galáxia, os chineses adaptam ingredientes extraterrestres para compor um novo tipo de yakisoba, os nigerianos cultuam seus orixás discretamente, um grupo de irlandeses fugidos tocam uma gaita de fole que conseguiram trazer escondida por entre bagagens.

Você conseguiu se colocar no lugar dessa pessoa da historinha, levada à força seu país de origem pra  tomar porrada sem nenhuma justificativa? Qualquer semelhança com a história da escravidão e do negro no Brasil não é mera coincidência. Essa questão me emocionou durante o mês na Bahia.

acarajé, exu, filhos de gandhy

Todos os brasileiros vivem esse passado, em maior ou menor escala, porque a cultura afro é grande parte da cultura brasileira. Vai dizer que um gaúcho não samba? Que um matogrossense não come feijoada?  Mas é muito mais forte estar lá e sentir ao vivo a capoeira mais perto de seu estado bruto, jogar os búzios num terreiro de candomblé e conversar com a mãe de santo, ouvir diferentes ritmos e instrumentos, aprender mais palavras em yorubá, passear na energia pesada do Pelourinho, comer um acarajé – que por acaso é comida de orixá.

Se o tema interessa, tem que assistir Na Rota dos Orixás, um documentário bem respeitado sobre a diáspora negra. A parte mais interessante é sobre a relação entre o Brasil e o Benim, um pequenino país bem ao lado da Nigéria. Imagine que os descendentes de escravos baianos que voltaram pra lá ainda se consideram brasileiros, são mais claros do que o resto da população (por causa da miscigenação que rolou aqui), sabem falar algumas palavras em português, têm nomes e sobrenomes bem familiares, fazem Carnaval e lavagem do Bonfim todo ano e têm o maior orgulho de ser “bisnetos de brasileiros” – que nem a gente fala aqui que é bisneto de italiano.

É fascinante ver tudo parado no tempo, como era há mais de 100 anos. As roupinhas, as marchinhas rudimentares, as casas em estilo colonial, os costumes à mesa, o pandeiro quadrado, tudo ficou congelado. Nós na mídia deles, só novelas da globo. E a gente, que nem sabe que eles existem? Credo, parece que o Brasil é uma ilha isolada, às vezes. Me lembrou um pouco Portugal, que vem consumindo vorazmente nossa cultura, e a gente mal sabe o que rola lá.

De tudo isso, só concluí uma coisa: carnaval 2011 no Benim! Quem vem?

bahia

Estou voltando devagarinho. É pra tentar estender o máximo possível o estado quase zen-budista de serenidade em que eu me encontro, depois de um mês na Bahia. Isso inclui manter distância de certos equipamentos e tipos de mídia, vocês sabem.

Eu acredito que quem está atento e disposto é capaz de aprender até com uma viagenzinha de fim de semana pra Praia Grande. Partindo desse pressuposto, dá pra imaginar como anda minha cabeça agora: um caldeirão borbulhante de novas informações, personalidades, paisagens, cores, sons, sotaques, cheiros, toques, sentimentos. E tudo isso volta durante o dia, em qualquer conversa corriqueira, e à noite também, em sonhos conturbados e difíceis de decifrar.

Mas, mais do que decorar na prática a ordem das praias de todo o litoral baiano, do sul àquele nortinho capcioso que só se alcança a partir de Sergipe, tive profundas lições sobre humanos, relacionamentos,  pessoas. Principalmente sobre mim mesma.

Às vezes dói muito.

Mas às vezes brota amor de onde não se espera, amor que te acalanta, que te ensina, te faz chorar, te faz sorrir e, como qualquer amor, te arrebata. E eu, que estou sempre me questionando se sou meio fria, porque costumo não responder a vários eu te amo que ouço de alguns amigos não tão próximos. Não. Sou apenas sincera e conheço a dimensão real dessa palavra. Não existe “amorzinho” nem “amorzão”, existe amor. Mesmo com toda a minha agressividade, intolerância e presunção, o amor brota. É como um milagre.

Esse foi um dos mil pensamentos importantes que tive: continuarei me passando por fria para uns, e me derramando em palavras doces e abraços apertados para outros. O amor é raro; milagres não acontecem todo dia.

Estou voltando devagarinho. Quando puder, escrevo mais. Prometo!

dezembro 25, 2009 · Textos meus · (No comments)

papainoelEu sei que o senhor deve estar lotado de cartinhas pra ler, mas é que fui tão boazinha e legal este ano que eu me sinto totalmente no direito de pedir uns presentes bem heavy metal. Saí de um trampo que eu odiava pra começar a ser mais útil pro mundo e pra sociedade, passei no mestrado da minha faculdade do coração na base de muito estudo e me joguei na Somaterapia também.

Então, Papai, o que eu te peço são uns frilas legais pra garantir o leitinho das criança (not). Uma casa com árvores e vários quartos pra dividir com meus soulmates. Ah, menos chuvas também – essa é mole, vai?

Também tem os homens, essa coisa toda. Não chega a ser um pedido, mas se não for dar muito mais trabalho, pode mandar um que me faça rir, que tenha coragem de me mandar tomar no cu quando necessário e que saiba da importância do seu papel no mundo. Se for daqueles criativos, melhor ainda. E não precisa ter barriga de tanquinho – aliás, melhor que não tenha mesmo, só precisa de braços longos que gostem de me envolver sempre. :)

A cartinha vai com atraso, mas o senhor tem aí uns diazinhos pra providenciar tudo. Inclusive se o senhor quiser postergar os presentes pro fim de janeiro, depois da minha viagem à Bahia, não tem problema. Mas nada dessa história de que estamos no Brasil e o ano só começa depois do carnaval, hein?

Beijos pra você, pros ajudantes e pras renas (especialmente a do nariz vermelho) e um ótimo 2010 a todos,

Laura

novembro 28, 2009 · Copy-paste, Textos meus · 1 comment

Dear all,

As this is my last day in the bank I wanted to share with you what is going on in my head.

For a Communication’s Bachelorette who arrived here without even knowing what a stock is, I still get stunned as I realize how much I have learned so far. In the beginning, I learned basic concepts, such as what Equity Research, fundamental analysis, technical analysis and quantitative analysis are, and what a report is for. Now, I believe my learning curve here has reached its peak when I correctly guessed that Twitter’s market cap is larger than Rodobens’.

(sorry, Real Estate team! :-)

As the saying goes, it is time for me to face new challenges. The university and the publishing market are waiting for me again. But this time I am more mature, experienced and competent, which I mainly atribute to each one of you that is receiving this e-mail. I am also taking true friendships with me, lots of them, which are one of the most valuable assets that life can give us.

That is why I want to say a HUGE “thank you”!

Um abraço,
Laura

novembro 7, 2009 · Imagens minhas, Textos meus · 2 comments

Visconde de Mauá

Não é que eu esteja, digamos assim, livre, leve e solta. Não é que eu tenha me libertado de todos os meus problemas internos e das intercorrências da vida, ou me conformado com o lado podre do cerumano. Eu continuo idealista demais, de lua, carente, melancólica. Mas é que agora consigo vislumbrar tantos caminhos. Os caminhos são infinitos. Não no sentido de não chegarem a lugar algum, e sim de serem inúmeros mesmo.

Sobre os caminhos que saem debaixo dos meus pés,  acho que eles não são tão simples como os que vemos por aí. Não se trata de comprar um apartamento, um carro e um cachorro e constituir uma família de comercial de margarina. Também não falo de um plano de carreira do tipo gerência < diretoria executiva < superintendência. Chamo de “simples” esses caminhos pelo fato de que já sabemos seu manual de instruções de cor. É ou não é? Já os meus, não os vejo circunscritos a nomes ou classificações. Mas isso também pode ser visto como uma vantagem, porque eles se tornam mais abertos – ainda bem. 

Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.

Não quero e não vou mais me submeter a ideias falsas e limitantes, como ”não tenho mais idade pra isso” ou “nunca vi ninguém fazendo desse jeito”.  Conceitos desse tipo também constam no manual de instruções e podem ser um referencial confortável, mas não se esqueça: manuais são úteis para produtos em série, que saem da fábrica exatamente iguaizinhos uns aos outros. E eu acredito que as pessoas que se descolam desse referencial são as que acabam criando as obras mais interessantes.  

Em matéria de lirismo, o Ricardo Reis dá um banho em mim.

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

……………
A tomada de consciência, as muitas reflexões, as poucas conclusões e os horizontes abertos, nada disso – nem a foto – seria possível sem a Somaterapia. Se você se busca contato com a totalidade do seu ser, vale a pena ler sobre. O Roberto Freire cita esse poema do Antonio Machado no livro Ame e dê Vexame. Tá aí no link, inteirinho e de graça, e é daqueles que se devora em questão de horas. E a água na boca final eu deixo com a seguinte frase: para ser o que realmente somos, só possuímos um indicador: o prazer de viver.
outubro 30, 2009 · Textos meus · 3 comments

Desde que uma astróloga de mão cheia fez rápidas interpretações do meu mapa astral, tenho lido sobre o assunto. Ela trabalha comigo e tem por princípio não fazer o detalhamento completo do mapa de calégas de trabalho, mas quando a gente pede, ela nos passa pequenos teasers.

Não vou entrar (muito) no mérito de se astrologia é verdade ou mentira. Porque eu teria que primeiro me explicar, pra depois explicar porque tenho dado um certo crédito ao assunto.  Tenho pavor de gente teimosa, que não sabe discutir nem escuta argumentações – esses geralmente são medrosos, têm medo de mudar. Sou sim uma pessoa razoavelmente cética, mas também me deixo flexibilizar quando vejo a quantidade de evidências de uma certa teoria (São Tomé feelings).

Foi assim, aos poucos, que comecei a dar ouvidos ao que os planetinhas podem ter a dizer. Primeiro a minha caléga astróloga, doravante Fulana, quis retificar meu ascendente. Muita gente já deve ter entrado nesses sites onde você bota a data e a hora de nascimento e sai lá seu ascendente, certo? Só que a primeira coisa que a Fulana viu foi que o meu está numa zona bem limítrofe – se eu tivesse nascido dois minutos depois, meu ascendente não seria Libra, e sim Escorpião. Considerando que  o relógio da maternidade do Hospital São Paulo provavelmente não trabalhava com a transição do átomo de césio 133 na ocasião do meu nascimento, ele podia estar um pouco adiantado ou atrasado.

A Fulana fez um recorrido da minha vida, citando a data de todos os fatos mais relevantes – mudanças, grandes decepções, grandes conquistas, viagens importantes - e me pediu pra confirmá-los. Eu devo ter ficado branca com bolinhas coloridas quando li a listinha: ela acertou tudo, tudo mesmo. E confirmou-se, sou virgem com ascendente em libra e lua em escorpião.

A Fulana me explicou também que tá rolando o Retorno de Saturno na minha vida agora. É um período que acomete todo cerumano entre os 28 e os 30 anos, na qual Saturno se posiciona no mesmo local em que ele estava no momento do nosso nascimento, e inicia uma nova volta em torno do zodíaco. [eu copiei essa descrição de um site que esqueci, sorry]

Na mitologia greco-romana, Cronos/Saturno castrou seu pai e tornou-se o rei dos deuses, mas segundo uma profecia, um de seus filhos ia destroná-lo também. Então ele passou a devorar seus próprios filhos. Mas sua mulher conseguiu salvar um deles, Zeus/Júpiter, que de fato o destronou e o expulsou do Olimpo. Cronos é o tempo, o que rege a vida e a morte, o que determina a duração de todas as coisas. O tempo consome tudo que cria.

Astrologicamente falando, Saturno se apresenta a nós de uma forma dura, malévola, sendo associado a depressões, crises e perdas. MÃNNS, se pensarmos sob uma perspectiva de tomada de consciência do que somos e do nosso potencial de realização, temos outra dimensão do planeta: a de um mestre que nos entrega aquilo que precisamos – e nem sempre o que desejamos – para despertar a nossa capacidade de realização. [também perdi a fonte, sorry de novo]

Ainda não sei se acredito em tudo isso. Mas pensa bem: se a Lua mexe com as marés, que é o movimento de um monte de água empilhada, por que aquele bando de planetas todos não mexeria com outros tipos de materiais/energias?

Também não encontrei a resposta para essa pergunta, claro. De qualquer forma, a leitura de sites inteligentes (como este e este) põe algumas pérolas em nosso caminho, ajudando nem que seja a entendermos melhor nossa existência:

Saturn tends to give a feeling of isolation, so if you feel others around you don’t have a clue about how hard it’s been for you – if they dismiss your suffering or fail to even see it – I sympathize, dear Virgo.

This is how Saturn works, but there is method in his madness.

By temporarily taking away your usual sources of support you will learn new ways to develop and grow independently. Although Saturn’s methods are extreme, he does get the results he is after – to make you stronger and more resourceful than you ever were before.

Que assim seja – seja por causa dos astros, seja pelo que for.

E vinte e nove anjos me saudaram,
E tive vinte e nove amigos outra vez…

outubro 20, 2009 · Textos meus · 1 comment

Me odeie
Me xingue
Me queira mal
Jogue minhas coisas fora
Bote meu nome na boca do sapo
Fale mal de mim pros nossos amigos
Amaldiçoe até minha quadragésima geração
Faça um bonequinho de vodu com a minha cara e enfie uma agulha 
                                   [bem embaixo da unha do dedinho da mão direita

Mas, por favor,
Só não fique triste comigo

outubro 16, 2009 · Comentários, Textos meus · 5 comments

Vejo cada vez mais gente escrevendo sobre o individualismo exacerbadíssmo dos nossos tempos. É um assunto que me interessa bastante e que me cutuca  há muitos anos, quando diariamente eu queria sair dando bica em quem estacionava na frente da porta do metrô e atravancava a passagem. São mil variações do mesmo tema: fulano que se escora no balaústre inteirinho, que desrespeita os assentos reservados, que não dá passagem no trânsito a alguém que pede cordialmente, que te fecha e se enfia na sua frente só porque ligou a seta… é a mulher que se entope de perfume e te impõe o cheiro dela, o idiota que liga o som do carro numa altura ensurdecedora e te obriga a ouvir a música dele. É o cocô de cachorro de madame que não foi limpado, é a celebridade que pisa e quase esmigalha seu pé numa festa, olha pra sua cara e não pede desculpa, porque você não é ninguém (essa já aconteceu comigo).

Eu poderia ficar até as Olimpíadas de 2016 (pfff) citando situações semelhantes que acontecem a todo momento, em todos os graus, em todos os lugares – bem, não fui à Birmânia pra saber, mas vocês entenderam: situações fruto do pensamento arraigado à cultura da qual participamos. Juro que não consigo entender como as pessoas podem agir assim. Pra mim, é TÃO óbvio que vivemos no meio de milhões de indivíduos, que a situação é delicada e que, se não tivermos parcimônia e não agirmos com justiça, a coisa não vai funcionar de uma forma mais organizada, harmônica e eficaz para TODOS. Por isso, eu bem que tento ter atitudes corretas e não-umbiguistas em relação ao máximo de itens que eu puder.

Claro, não posso deixar de mencionar aqui que sou um cerumano regido por seus hormônios, pela lua, pela relatividade do cosmos, pela flutuação do câmbio, pela saída da cama com o pé esquerdo, enfim, por motivos muitas vezes osbscuros e parciamente desconhecidos – como qualquer cerumano. Volta e meia fico puta com o fulano que usa egoisticamente seu escudo de metal (vulgo carro – deve ser parte integrante do seu kit de super-herói) pra se enfiar na minha frente, como se fosse óbvio que ele tem esse direito. Aí mando pra puta que pariu, não dou passagem, se possível ainda arrumo briga. Um dos meus objetivos de vida é exercitar a tolerância e a paciência pra poder viver melhor nesta selva, mas muitas vezes não dá. Não rola meeesmo.

No Saturnália, uma das minhas leituras diárias, fizeram um mini muro das lamentações com essa temática ontem. O Leonardo Boff publicou hoje um artigo sobre o individualismo. Na Folha Equilíbrio de ontem, dois textos (um da Roseli Sayão, educadora, e outro da Dulce Critelli, terapeuta) abordaram a falta de espírito de coletividade entre as pessoas. Aliás, transcrevo aqui um trecho desse último, digníssimo de nota:

O que nos falta é o sentimento de termos um mundo em comum. Não nos sentimos pertencer, em conjunto, ao mesmo mundo. Por isso, problemas da realidade, aí fora, não nos afetam.
Assim, entendemos que os problemas do país são de responsabilidade dos políticos, os de saúde, da alçada dos médicos… Reconhecemos como nossos somente os problemas que nos afetam diretamente.
Parecemos viver dentro de bolhas particulares. A perda do sentimento de pertencermos a um mundo comum nos mantém isolados uns dos outros e cada vez mais incomunicáveis.
A violência urbana e a dinâmica do universo profissional corroboram com isso. Exercemos, hoje, muito melhor a competição do que a solidariedade. O problema maior é que, quando perdemos o sentido de um mundo em comum, ficamos mortalmente atingidos na nossa condição humana. Os homens não foram criados para que vivessem sozinhos.

Percebem que são quatro textos com abordagem bem semelhante, publicados quase simultaneamente? Então menos mal, eu não devo ser a única que pensa nisso. E, a exemplo dos textos que não param de pipocar, talvez a quantidade de gente que preza por essas questões esteja aumentando. Agora, a pergunta de um milhão de doletas: como ajudar a conscientizar o resto do mundo?