Imagine que você está fazendo o jantar, liga a tevê e o William Bonner fala que os extrarrestres invadiram a Terra. Você não acredita, entra em pânico, olha para a rua e o caos começa a tomar conta da cidade: pessoas correndo, lojas fechando. Em pouco tempo os ETs aprendem a se comunicar com os terráqueos, daí identificam os políticos, policiais, coronéis e todas essas pequenas autoridades focaultinanas e começam a negociar a compra e posterior abdução de cidadãos comuns, que são levados como mão de obra barata para trabalhar na expansão de galáxias longínquas.
Dias depois o telefone toca, é sua mãe, ela te conta do primeiro conhecido a ser abduzido: o cunhado do vizinho da sua tia. No dia seguinte, você descobre que alguns colegas de trabalho do andar de baixo que faziam hora-extra na noite anterior também foram levados. Depois, um conhecido seu da época de faculdade e toda sua família são levados e separados em três naves distintas, que seguiam para galáxias trilhões de anos-luz distantes entre si. Por fim, o primeiro amigo seu, pessoa que você realmente ama e quer bem, é abduzido também. Você chora, se revolta, sua vida nunca mais será a mesma sem ele. Não se sabe direito pra onde ele vai, se um dia ele vai voltar, não se sabe nada.
Num dia aparentemente mais calmo, você aproveita para ir visitar sua avozinha que não vê há semanas. Além de falar bastante sobre todo o caos do planeta Terra, vocês também falam sobre amenidades, ela te conta sobre o jardineiro folgado que deixou o serviço mal-feito e cobrou os olhos da cara, essas coisas. Afinal, a vida continuou como deu. Aí você começa a ouvir um barulhinho estranho na porta, parece que tem alguém tentando desparafuzar a fechadura, você sente um arrepio na espinha: são eles. Instrumentos eletroeletrônicos totalmente desconhecidos, com feixes de luz e energias de frequências improváveis, te imobilizam e te levam diretamente para a nave. A última cena do Brasil que fica na sua cabeça é o choro desesperado da avozinha, deixada pra trás por já ser idosa e não gozar de suas plenas capacidades físicas e mentais.
A viagem na nave espacial leva semanas. Os humanos são transportados em condições deploráveis, têm que dormir agachados, passam muito frio, muitos adoecem e morrem, outros enlouquecem já no trajeto. É o começo de muitas brutalidades, como o ambiente inóspito das galáxias desconhecidas, a hostilidade dos ETs, a jornada de trabalho de 20h diárias a que seriam submetidos e a mesma tortura que já havia sido vista nas aulas de história. Os ETs sabiam que só um humano pode imaginar o que de pior se pode fazer a outro humano – tronco, garrote, eletrochoques, estupros múltiplos, empalamento, hipotermia por imersão no gelo…
Mesmo nessas condições, você e os outros humanos vão tocando a vida com força e esperança de um dia voltar pra Terra. Enquanto isso, se viram como podem e, mesmo proibidos, os brasileiros dão um jeito de sambar escondidos e ensinar a dança aos descendentes nascidos na nova galáxia, os chineses adaptam ingredientes extraterrestres para compor um novo tipo de yakisoba, os nigerianos cultuam seus orixás discretamente, um grupo de irlandeses fugidos tocam uma gaita de fole que conseguiram trazer escondida por entre bagagens.
Você conseguiu se colocar no lugar dessa pessoa da historinha, levada à força seu país de origem pra tomar porrada sem nenhuma justificativa? Qualquer semelhança com a história da escravidão e do negro no Brasil não é mera coincidência. Essa questão me emocionou durante o mês na Bahia.
Todos os brasileiros vivem esse passado, em maior ou menor escala, porque a cultura afro é grande parte da cultura brasileira. Vai dizer que um gaúcho não samba? Que um matogrossense não come feijoada? Mas é muito mais forte estar lá e sentir ao vivo a capoeira mais perto de seu estado bruto, jogar os búzios num terreiro de candomblé e conversar com a mãe de santo, ouvir diferentes ritmos e instrumentos, aprender mais palavras em yorubá, passear na energia pesada do Pelourinho, comer um acarajé – que por acaso é comida de orixá.
Se o tema interessa, tem que assistir Na Rota dos Orixás, um documentário bem respeitado sobre a diáspora negra. A parte mais interessante é sobre a relação entre o Brasil e o Benim, um pequenino país bem ao lado da Nigéria. Imagine que os descendentes de escravos baianos que voltaram pra lá ainda se consideram brasileiros, são mais claros do que o resto da população (por causa da miscigenação que rolou aqui), sabem falar algumas palavras em português, têm nomes e sobrenomes bem familiares, fazem Carnaval e lavagem do Bonfim todo ano e têm o maior orgulho de ser “bisnetos de brasileiros” – que nem a gente fala aqui que é bisneto de italiano.
É fascinante ver tudo parado no tempo, como era há mais de 100 anos. As roupinhas, as marchinhas rudimentares, as casas em estilo colonial, os costumes à mesa, o pandeiro quadrado, tudo ficou congelado. Nós na mídia deles, só novelas da globo. E a gente, que nem sabe que eles existem? Credo, parece que o Brasil é uma ilha isolada, às vezes. Me lembrou um pouco Portugal, que vem consumindo vorazmente nossa cultura, e a gente mal sabe o que rola lá.
De tudo isso, só concluí uma coisa: carnaval 2011 no Benim! Quem vem?





Há algumas coisas morrendo em mim, outras estou matando aos poucos. E muitas renascendo… faz parte dos ciclos da vida, mesmo que eles sejam muito mais demorados do que deveriam, que a gente sofra com a rebarba de experiências que poderiam já estar 100% digeridas, que o recomeço seja penoso.
