fevereiro 12, 2010 · Comentários, Textos meus · 1 comment

Claudia Leitte na capa da Rolling Stone

Não me diga, Claudinha! Tá ficando espertinha, hein?

PS. Ao ver uma bolsinha Louis Vutton cujo preço ultrapassa os quatro dígitos estampada nas sugestões de compras da revista, a única conclusão plausível é que a Rolling Stone é a Caras do mundo da música, correto?

fevereiro 8, 2010 · Amo Muito, Comentários · 2 comments

Estou retomando algumas atividades nesta babilônia em chamas, e uma exposição que achei legal de visitar é a Ocupação Chico Science no Itaú Cultural. A Ocupação anterior foi sobre o Paulo Leminski, lembram? O Itaú anda acertando em cheio meus arrrtistas preferidos, então sou bem da suspeita pra falar, mas a obra do cara é revolucionária mesmo. Olha essa música – é uma das coisas mais pesadas, psicodélicas, enigmáticas e envolventes que já ouvi.

A exposição tá criativa e gostosa de circular, tem trechos de músicas pelas paredes, um monte de objetos pessoais relevantes e anotações do próprio punho, depoimentos de amigos, essas coisas. E o espaço da exposição é sempre composto de pequenos ambientes cheios de surpresinhas. Desta vez, tem uma cortina de papel laminado em uma das salas que quase dá pra se perder lá dentro!

Foto by Estadão

A próxima exposição que vou visitar, pra seguir no mesmo clima, vai ser a do J. Borges na Caixa Cultural. Na minha viagem ao Maranhão/Piauí/Pernambuco ano passado ficou faltando passar por Bezerros, sinto que ficou essa lacuna. Lá vou eu me redimir! Ando apaixonada pela cultura brasileira, o negócio não tem fim.

Por fim, meu pedacinho preferido do Manifesto Mangue. Qualquer semelhança com uma certa cidade aí pelo Sudeste brasileiro que anda impermeabilizando seu solo e sua alma há algumas décadas não é mera coincidência…

Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto! Não é preciso ser médico para saber que a maneira mais simples de parar o coração de um sujeito é obstruindo as suas veias. O modo mais rápido, também, de infartar e esvaziar a alma de uma cidade como o Recife é matar os seus rios e aterrar os seus estuários. O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife.

Se alguém tiver alguma ideia parecida pra estas bandas de cá, liga nói que eu quero por a mão na massa!

novembro 12, 2009 · Comentários · 5 comments

No que concerne ao caso da moça de vestido rosa na Uniban, acho que todos deveriam ler este texto e pronto, assunto encerrado. É tudo que eu gostaria de dizer! Pontos a serem destacados:

  • “A massa não é confiável”, escreveu Freud em Psicologia de massas e análise do eu (1920). (…) O sujeito dissolvido na massa se precipita em atos extremos que jamais – ou sempre? – sonhara praticar.
  • Usar a palavra puta como insulto revela o ressentimento do homem diante do desejo sexual da mulher, quando esse desejo não é voltado para ele.
  • A expulsão de Geisy me parece pura covardia da direção da Uniban: vamos nos livrar de um problema com o qual não sabemos lidar.
  • Se essas manifestações de massa enlouquecidas não são barradas e punidas, as pessoas entendem que estão autorizadas e a barbárie tende a se repetir.
  • O freguês, para o comerciante, tem sempre razão. Só que a universidade, ao se comportar como um comércio, se desmoraliza como instituição de ensino e educação.
  • Quando Geisy se defende dizendo “eu me visto como quero e como me sinto bem”, ela nem se dá conta de que está tentando corresponder ao padrão de hipersensualidade que vê na publicidade, nas novelas, nos filmes comerciais etc.
  • Se a Geisy tinha uma festa mais tarde poderia ter levado o vestido na bolsa e trocado depois das aulas, mas, pelo depoimento dela, me parece que a moça não tem a menor noção da diferença entre, por exemplo, a faculdade e a balada.
  • Ela me pareceu, em sua posição isolada, tão tonta e tão alienada quanto a turba que não soube dar uma expressão civilizada ao seu descontentamento.
  • A conclusão ficaria por conta de Hannah Arendt: quando o pensamento torna-se supérfluo, abre-se o caminho para a banalidade do mal.

Ou seja, tudo errado: a Geisy (que se erotiza pra se encaixar num padrãozinho escroto), a Uniban (que se posicionou com seguidas atitudes completamente antieducacionais) e, claro, os linchadores (”a moral tradicional” que “explodiu na Uniban com a fúria do retorno do recalcado”).

Geisy, um último recadinho pra você, amyga: pelo amor de Deus, não saia na Playboy!!!

outubro 16, 2009 · Comentários, Textos meus · 5 comments

Vejo cada vez mais gente escrevendo sobre o individualismo exacerbadíssmo dos nossos tempos. É um assunto que me interessa bastante e que me cutuca  há muitos anos, quando diariamente eu queria sair dando bica em quem estacionava na frente da porta do metrô e atravancava a passagem. São mil variações do mesmo tema: fulano que se escora no balaústre inteirinho, que desrespeita os assentos reservados, que não dá passagem no trânsito a alguém que pede cordialmente, que te fecha e se enfia na sua frente só porque ligou a seta… é a mulher que se entope de perfume e te impõe o cheiro dela, o idiota que liga o som do carro numa altura ensurdecedora e te obriga a ouvir a música dele. É o cocô de cachorro de madame que não foi limpado, é a celebridade que pisa e quase esmigalha seu pé numa festa, olha pra sua cara e não pede desculpa, porque você não é ninguém (essa já aconteceu comigo).

Eu poderia ficar até as Olimpíadas de 2016 (pfff) citando situações semelhantes que acontecem a todo momento, em todos os graus, em todos os lugares – bem, não fui à Birmânia pra saber, mas vocês entenderam: situações fruto do pensamento arraigado à cultura da qual participamos. Juro que não consigo entender como as pessoas podem agir assim. Pra mim, é TÃO óbvio que vivemos no meio de milhões de indivíduos, que a situação é delicada e que, se não tivermos parcimônia e não agirmos com justiça, a coisa não vai funcionar de uma forma mais organizada, harmônica e eficaz para TODOS. Por isso, eu bem que tento ter atitudes corretas e não-umbiguistas em relação ao máximo de itens que eu puder.

Claro, não posso deixar de mencionar aqui que sou um cerumano regido por seus hormônios, pela lua, pela relatividade do cosmos, pela flutuação do câmbio, pela saída da cama com o pé esquerdo, enfim, por motivos muitas vezes osbscuros e parciamente desconhecidos – como qualquer cerumano. Volta e meia fico puta com o fulano que usa egoisticamente seu escudo de metal (vulgo carro – deve ser parte integrante do seu kit de super-herói) pra se enfiar na minha frente, como se fosse óbvio que ele tem esse direito. Aí mando pra puta que pariu, não dou passagem, se possível ainda arrumo briga. Um dos meus objetivos de vida é exercitar a tolerância e a paciência pra poder viver melhor nesta selva, mas muitas vezes não dá. Não rola meeesmo.

No Saturnália, uma das minhas leituras diárias, fizeram um mini muro das lamentações com essa temática ontem. O Leonardo Boff publicou hoje um artigo sobre o individualismo. Na Folha Equilíbrio de ontem, dois textos (um da Roseli Sayão, educadora, e outro da Dulce Critelli, terapeuta) abordaram a falta de espírito de coletividade entre as pessoas. Aliás, transcrevo aqui um trecho desse último, digníssimo de nota:

O que nos falta é o sentimento de termos um mundo em comum. Não nos sentimos pertencer, em conjunto, ao mesmo mundo. Por isso, problemas da realidade, aí fora, não nos afetam.
Assim, entendemos que os problemas do país são de responsabilidade dos políticos, os de saúde, da alçada dos médicos… Reconhecemos como nossos somente os problemas que nos afetam diretamente.
Parecemos viver dentro de bolhas particulares. A perda do sentimento de pertencermos a um mundo comum nos mantém isolados uns dos outros e cada vez mais incomunicáveis.
A violência urbana e a dinâmica do universo profissional corroboram com isso. Exercemos, hoje, muito melhor a competição do que a solidariedade. O problema maior é que, quando perdemos o sentido de um mundo em comum, ficamos mortalmente atingidos na nossa condição humana. Os homens não foram criados para que vivessem sozinhos.

Percebem que são quatro textos com abordagem bem semelhante, publicados quase simultaneamente? Então menos mal, eu não devo ser a única que pensa nisso. E, a exemplo dos textos que não param de pipocar, talvez a quantidade de gente que preza por essas questões esteja aumentando. Agora, a pergunta de um milhão de doletas: como ajudar a conscientizar o resto do mundo?

outubro 12, 2009 · Comentários, Textos meus · 4 comments

Recebo o seguinte e-mail, em tréplica àquele famoso “INCENTIVO À VAGABUNDAGEM” que tá rolando por aí:

Não é tudo culpa só do do Lula. A culpa é dele, dos que votam nele, dos que acreditam nele e dos que não fazem nada para transformar esse país num país sério… ou seja… a culpa é de todos nós… independente de classe, filosofia ou opinião. Engraçado que na apresentação da candidatura do Rio de Janeiro para as Olimpíadas não apareceu nenhuma favela… será que a urbanização de todas elas também faz parte do pacote de  30 bilhões? Eu não torço contra o Brasil. Muito pelo contrário. Torço para o que eu acho certo. Torço para que se respeite uma ordem de prioridades. Torço para que o o governo faça a restituição do imposto de renda não só para mim, que sou da classe média e nem estou contando com esse dinheiro, mas para todos. Dar calote no povo (todas as classes) enquanto emprestam 10 bilhões ao FMI é ultrajante.. . quer dizer… deve ser apenas mais um delírio da classe média… rs
OBS: gostei muito da idéia de repudiar a opinião de uma pessoa, com a qual não concorda, com argumentos psicossomáticos. .. é muito mais fácil (e deselegante) considerar que nosso adversário é louco ou sofreu uma lavagem cerebral… e vamos continuar rindo de nós mesmos… enquanto esse país de merda vai de mal a pior.

Psicossomático? Isso tem a ver com o fato de eu ter mandado o link do Classe média way of life pra ele, como resposta ao “INCENTIVO À VAGABUNDAGEM”? Haha. Mas que ele mandou um  “vamos continuar rindo” pra pessoa errada, ahhh, isso ele mandou…

Vou me ater ao assunto do primeiro email, deixando de lado as olimpíadas, o FMI etc, só pra não fugir do tema, ok?

Fulano,você argumenta que este país não é sério pq tiram dinheiro da classe média pra dar a vagabundos. Só que, se for assim mesmo, todos os países da Europa Ocidental também não são sérios, porque em todos eles existem programas bem semelhantes. E eu conheço – pessoalmente – muitos nativos que preferem viver desempregados na Espanha ou na Irlanda a pegar um trabalhinho merda qualquer, porque o dinheiro do governo dá pra passar o mês. Apertado, mas dá.

E aí, a Europa não é séria também?

O que não podemos fazer é duvidar dos benefícios de um programa do governo por causa de uma minoria de má-fé que se aproveita dele pra tirar vantagem. O que, aliás, a classe mérdia também sabe fazer muito bem, não? Subornando o CET pra não tomar multa, fazendo esquema com o cara da NET pra instalar gato em casa… ninguém passa impune, meus caros. Nem a que escreve o email.

O Bolsa Família e afins têm problemas sim… pode ser uma medida paternalista, inclusive descobriram que vários políticos estão inscritos no programa e recebendo a grana… mas é indiscutível que tirou um monte de gente da miséria absoluta, e mais uma vez falo com conhecimento de causa: este ano fiz uma viagem ao sertãozão do Nordeste e conversei com gente PAUPÉRRIMA, que antes não tinha nem água, e agora pelo menos tem o que comer.

Agora me digam, como podemos nos revoltar contra um programa que tira uns trocados mensais nossos pra dar COMIDA a quem não tem nem isso? Tá na base da pirâmide de Maslow, conforme vcs estudaram e sabem: comida vem antes da grana pra pagar o estacionamento. Acho que se revoltar contra isso é muito desamor, é não conseguir pensar no coletivo, é dificuldade de se colocar no lugar de outro ser humano. Bem se sabe que vivemos em umas das épocas mais difíceis da história, em que mais falta cooperação e sobra individualismo.

Não sei quanto a você, mas eu não estou rindo nem um pouco. Mas eu sei que tem gente que ri sim, são as mesmas que olhariam o tamanho deste email e pensariam “vishh nem vô ler ó”. Como todo assunto polêmico, não existe verdade absoluta, por isso digo este é o meu ponto de vista – mas podemos debater “elegantemente” pra levantar mais ideias e esclarecimentos.

OBS: Não entendi o que vc chama de argumentos psicossomáticos, mas se o q vc queria era um e-mail com uma argumentação mais clássica, ei-lo!

setembro 24, 2009 · Comentários, Copy-paste · 4 comments

Recebi um email com o título acima, cheio de tópicos bonitinhos/auto-ajuda feelings, escrito por uma jornalista que acabara de completar 90 anos.

Regina’s 45 life lessons and 5 to grow on
Written By Regina Brett, of The Plain Dealer, Cleveland, Ohio

To celebrate growing older, I once wrote the 45 lessons life taught me. It is the most-requested column I’ve ever written. My odometer rolls over to 90 this week, so here’s an update:

1. Life isn’t fair, but it’s still good.
2. When in doubt, just take the next small step.
3. Life is too short to waste time hating anyone.
4. Don’t take yourself so seriously. No one else does.
5. Pay off your credit cards every month.
6. You don’t have to win every argument. Agree to disagree.
7. Cry with someone. It’s more healing than crying alone.
8. It’s OK to get angry with God. He can take it.
9. Save for retirement starting with your first paycheck.
10. When it comes to chocolate, resistance is futile.
11. Make peace with your past so it won’t screw up the present.
12. It’s OK to let your children see you cry.
13. Don’t compare your life to others’. You have no idea what their journey is all about.
14. If a relationship has to be a secret, you shouldn’t be in it.
15. Everything can change in the blink of an eye. But don’t worry; God never blinks.
16. Life is too short for long pity parties. Get busy living, or get busy dying.
17. You can get through anything if you stay put in today.
18. A writer writes. If you want to be a writer, write.
19. It’s never too late to have a happy childhood. But the second one is up to you and no one else.
20. When it comes to going after what you love in life, don’t take no for an answer.
21. Burn the candles, use the nice sheets, wear the fancy lingerie. Don’t save it for a special occasion. Today is special.
22. Overprepare, then go with the flow.
23. Be eccentric now. Don’t wait for old age to wear purple.
24. The most important sex organ is the brain.
25. No one is in charge of your happiness except you.
26. Frame every so-called disaster with these words: “In five years, will this matter?”
27. Always choose life.
28. Forgive everyone everything.
29. What other people think of you is none of your business.
30. Time heals almost everything. Give time time.
31. However good or bad a situation is, it will change.
32. Your job won’t take care of you when you are sick. Your friends will. Stay in touch.
33. Believe in miracles.
34. God loves you because of who God is, not because of anything you did or didn’t do.
35. Whatever doesn’t kill you really does make you stronger.
36. Growing old beats the alternative – dying young.
37. Your children get only one childhood. Make it memorable.
38. Read the Psalms. They cover every human emotion.
39. Get outside every day. Miracles are waiting everywhere.
40. If we all threw our problems in a pile and saw everyone else’s, we’d grab ours back.
41. Don’t audit life. Show up and make the most of it now.
42. Get rid of anything that isn’t useful, beautiful or joyful.
43. All that truly matters in the end is that you loved.
44. Envy is a waste of time. You already have all you need.
45. The best is yet to come.
46. No matter how you feel, get up, dress up and show up.
47. Take a deep breath. It calms the mind.
48. If you don’t ask, you don’t get.
49. Yield.
50. Life isn’t tied with a bow, but it’s still a gift. 

Como é uma lista pessoal, tenho problemas com alguns dos conceitos envolvidos (”a vida é um presente”, “acredite em milagres”, “Deus gosta de você”). Ainda assim é uma graça, ainda mais se a gente pensar numa velhinha de 90 anos escrevendo tópico por tópico… mas achei a história estranha, porque no final do e-mail tava o seguinte:

It’s estimated that 93% of people who receive this email won’t forward it. If you are one of the 7% who will, forward this with the title ‘7%’.  I’m in the 7%.  Remember, friends are the family we choose for ourselves.

Forward? Mas não era um artigo? Aí pesquisei e descobri que desvirtuaram o texto mesmo, atribuindo-o a uma senhorinha que a gente imagina de óculos e coquinho branco. A jornalista na verdade tem agora 53 anos, e escreveu o texto quando completou 50. Droga! Essa era a graça: uma veinha falando que nosso principal órgão sexual é o cérebro, aconselhando a gente a trabalhar menos, a pagar o cartão…

Acho que vou continuar pensando que foi assim que o texto nasceu. E pronto.

PS: Gosto muito dos itens 11, 19, 32 e 39, e discordo do 14. E vocês?

agosto 13, 2009 · Comentários · 4 comments

Amor, promete pra mim
Que a gente nunca vai morar na Chácara Klabin?

Arquitetura Neoliberal (ou Como devastar uma cidade sem bombas)
Espetacular amarração de vários pensamentos sobre a cidade grande – aposto que muitos deles já passaram pela sua ou pela minha cabeça. Recomendo ler na íntegra, não é muito maior do que os trechos colados aqui embaixo.

Se a cidade de São Paulo foi chamada pelos modernistas de 22 de autofágica, renovando-se através de um contínuo processo de destruição criadora, a metáfora mais apropriada hoje em dia talvez fosse a de cidade-metástase, onde bairros inteiros são destruídos para dar lugar a megacondomínios isolados e auto-suficientes, e ruas cheias de vida dão lugar a ruas mortas.

As ruas, antes espaços de sociabilidade e de convivência, agora estão imundas, pichadas, inseguras, inóspitas e sem vida, tornaram-se apenas local de passagem.

Hermética separação com o mundo exterior através de uma variedade de barreiras físicas (a chamada arquitetura do pânico), e conseqüente ausência de diálogo com o entorno; rígida segregação social e funcional – tais empreendimentos são exclusivamente residenciais e voltados exclusivamente para as classes mais abastadas; utilização de enormes espaços urbanos para a moradia de uma quantidade pequena de pessoas; privilegiamento do acesso por automóvel em detrimento do acesso de pedestres, grande destaque dado ao automóvel em geral, com generosa oferta de vagas de garagem; uma tentativa de se destacar do entorno, de chamar a atenção, de aparecer, tanto através de seu tamanho conspícuo, como através de fachadas vistosas e empetecadas no chamado estilo “neoclássico”, que também buscam conferir uma pretensa sofisticação ao imóvel e seus ocupantes; oferta de uma prodigiosa gama de “amenidades” – algumas de utilidade duvidosa – aos seus ocupantes, com a pretensa finalidade de tornar o GVL o mais auto-suficiente (e portanto independente da cidade) possível, todas elas com nomes em inglês ininteligíveis para mortais comuns, tais como “day care”, “fitness center”, “garage band”, “kids room” “teen lounge”, “dog space”.

Grades, seteiras, fossos, lanças e arames farpados que remetem a uma imagem medieval complementam-se com equipamentos de alta tecnologia, como câmeras, sensores infravermelhos e torres blindadas.

É de se perguntar até que ponto esse tipo de vida tem relação com o surgimento de monstros como os adolescentes da Barra da Tijuca, todos eles moradores de condomínios de luxo, que espancaram – por diversão – e roubaram uma jovem que trabalhava como empregada doméstica num desses condomínios. (…) Na verdade, quando as pessoas têm noções frágeis de interesse público, responsabilidade pública e respeito pelos direitos de outras pessoas, é improvável que venham a adquirir essas noções dentro dos condomínios. Pelo contrário, a vida dentro dos universos privados só contribui para enfraquecer ainda mais suas noções de responsabilidade pública.

Os guetos verticais de luxo estão dentro das cidades mas não fazem parte delas, estão de costas para elas, estão em permanente conflito com elas. Procuram sugar o máximo possível das cidades sem dar nada em troca a não ser problemas ambientais, congestionamentos, medo, insegurança, abandono do espaço público e caos – em outras palavras, uma relação parasitária.

A bolha imobiliária de São Paulo, que consagrou a arquitetura e o urbanismo neoliberais, tem data de nascimento determinada: a aprovação do atual Plano Diretor, no final de 2002. A licenciosidade urbanística autorizada, incentivada e exaltada por esse Plano e que merece ser qualificado, na melhor das hipóteses, como ultraneoliberal, chegou a níveis tão prodigiosos que uma das tímidas medidas ensaiadas pela atual administração para abrandá-los (e que sequer chegou a ser aprovada), determinava que megacondomínios com mais de 50.000 m² teriam que abrir ruas públicas em seu interior.

Na verdade, o neoliberalismo consiste na volta da lei da selva, da lei do mais forte, que no caso é aquele que tem mais dinheiro: os privilégios de uma minoria se sobrepõem aos direitos individuais e coletivos da esmagadora maioria, em resumo, os que estão em cima pisam nos que estão embaixo. Isso vale inclusive para a relação dos donos do poder e do dinheiro para com a classe média, cujo poder também se viu esvaziado pelo neoliberalismo.

Das 10 ações com maior queda em 2008, três são de construtoras. Avassaladas por um nível de endividamento impagável, e assistindo ao mercado consumidor desaparecer como uma miragem, várias delas agora se encontram a um passo da falência – para citar apenas um exemplo, uma delas, responsável pela destruição do mais importante casarão do bairro de Vila Mariana, situado na R. Vergueiro, e que num gesto de marketing desesperado, apregoa como tábua de salvação sua compra por um ex-bilionário espanhol – falido. E num gesto tipicamente neoliberal, elas que pregavam a não intervenção do Estado em seus assuntos (a não ser, é claro, para beneficiá-las), agora clamam por pacotes de ajuda do governo, contando com a eterna boa vontade para com eles de seus amigos (leia-se serviçais) no Executivo e no Legislativo.

julho 8, 2009 · Comentários · 2 comments

Conferência com Edgar Morin
SESC Consolação | 16 de julho, quinta, às 10h00

PENSAR O SUL é o tema sobre o qual o pensador e escritor francês Edgar Morin nos convida a refletir. Sua referência é de que há uma pluralidade no Sul no sentido geográfico, geopolítico, mas também simbólico, que exige um novo modo de análise e de compreensão do contexto mundial, impelindo-nos a navegar por vários portos, a entrelaçar continentes, arquipélagos e ilhas que formam esse novo Sul. Um sul que reivindica uma política de regeneração, de defesa da qualidade de vida e do ambiente, uma defesa que implica na defesa da vida em si mesmo, uma política de emigração que nos permite substituir o medo demográfico e étnico, pelo sentido de hospitalidade, pelo sentimento de complementaridade e respeito do outro.

Medo demográfico e étnico é eufemismo pra xenofobia? Que palavra será que ele usa no original?

Ainda dá pra reverter a tendência de criminalização da imigração?

Criando um pouco de polêmica agora. Um país não tem direito de defender os interesses de seus cidadãos? Se os cidadãos de um país não têm regalias em relação aos cidadãos do resto do mundo, as fronteiras perderiam o sentido e poderiam ser abolidas. Seria lindo e eu adoraria ver isso nesta vida ainda, mas estou registrando aqui um raciocínio lógico, não lindo. Essas leis protecionistas têm seu sentido. Ninguém é obrigado a fazer caridade pros hermanos mais pobrinhos, apesar de ser uma atitude nobre e demonstrar altruísmo. Hoje em dia, quase não vemos mais esse tipo de gesto nem na esfera pessoal (ou você doa dinheiro regularmente a alguma instituição de caridade séria, ou tem um trabalho voluntário regular? Se sim, já deve saber que faz parte de uma minoria)! Pois bem, quem dirá numa escala tão grande quanto a global…

É incoerente recriminar leis anti-imigração de países, esses organismos com leis e fronteiras próprias, tanto quanto um católico apostólico romano defender a legalização do aborto ou o uso da camisinha. Eu simplesmente não entendo essas coisas. São atitudes que vão contra todos os preceitos da religião que o cerumano segue! Pra mim, quando não é imposta, a religião não é pra ser “meio” seguida, ou um terço ou dois terços seguida, porque todas as nuances do seu sistema de valores estão intrincadas e relacionadas.

ps chatinho: porra, horário comercial de dia útil é só pras dondocas e estudantes de primeiro ano de faculdade irem?
julho 1, 2009 · Comentários · (No comments)

A cena mais emblemática do mercado financeiro vive seus dias derradeiros no Brasil: em 30 de junho, será extinto o pregão viva-voz. Os últimos operadores da BM&F no país, profissionais acostumados a pirar na Bolsa, buscam um caminho para não ficar tão longe do cotidiano turbulento – e uma alternativa no mercado de trabalho.
Por Beto Costa, da Rolling Stone

Meio que continuando o post anterior. Não vou colar a matéria inteira aqui, mas vale a pena ir lá e ler.

Ontem, fui buscar um café na máquina e inevitavelmente ouvi a conversa entre dois caras. Um deles era operador do pregão e falava sobre sua gastrite nervosa, a dor aguda que sentia, o refluxo noturno e o não comparecimento à festa de despedida que aconteceria naquele dia mesmo, na própria BM&F. “Vai ser muito triste, não quero nem ver”.

Hoje é o primeiro dia sem o pregão analógico. O primeiro dia do resto das vidas desses profissionais.

junho 30, 2009 · Comentários · (No comments)

Segundo dados divulgados pela Organização das Nações Unidas (ONU), enquanto os países pobres receberam, em meio século, cerca de US$ 2 bilhões em doações de países ricos, bancos e outras instituições financeiras ganharam, em apenas um ano, US$ 18 bilhões em ajuda pública. A ONU alertou que a crise econômica mundial piorará ainda mais a situação dos países mais pobres, agravando os problemas da fome, da desnutrição e da pobreza.
Redação – Carta Maior

O setor financeiro internacional recebeu, apenas em 2008, quase dez vezes mais recursos públicos do que todos os países pobres do planeta nos últimos cinqüenta anos. O dado foi divulgado nesta quarta-feira (24) pela campanha da Organização das Nações Unidas (ONU) pelas Metas do Milênio, destinada a combater a fome e a pobreza no mundo. Enquanto os países pobres receberam, em meio século, cerca de US$ 2 bilhões em doações de países ricos, bancos e outras instituições financeiras ganharam, em apenas um ano, US$ 18 bilhões em ajuda pública.

A ONU alertou que a crise econômica mundial piorará ainda mais a situação dos países mais pobres, lembrando que, na semana passada, a Organização para a Agricultura e Alimentação (FAO) afirmou que a crise deixará cerca de 1 bilhão de pessoas passando fome no mundo.

A revelação foi feita no início de uma conferência entre países ricos e pobres, que ocorre na sede da ONU, em Nova York, para debater o impacto da crise. Segundo o diretor da Campanha pelas Metas do Milênio, Salil Shetty, esses números mostram que a destinação de recursos públicos ao desenvolvimento dos países mais pobres não é uma questão de falta de recursos, mas sim de vontade política.

“Sempre digo que se você fizer uma promessa e não cumprir, é quase um pecado, mas se fizer uma promessa a pessoas pobres e não cumprir, então é praticamente um crime”, disse Shetty à BBC. “O que é ainda mais paradoxal”, acrescentou, “é que esses compromissos (firmados pelos países ricos para ajudar os mais pobres) são voluntários”. “Ninguém os obriga a firmá-los, mas logo eles são renegados”, criticou o funcionário da ONU.

Um dos efeitos desta perversa distorção foi apontado pela FAO: a quantidade de pessoas desnutridas aumentará no mundo em 2009, superando a casa de um bilhão. “Pela primeira vez na história da humanidade, mais de um bilhão de pessoas, concretamente 1,02 bilhão, sofrerão de desnutrição em todo o mundo”, advertiu a entidade. A FAO considera subnutrida a pessoa que ingere menos de 1.800 calorias por dias.

Do total de pessoas subnutridas hoje no mundo, 642 concentram-se na Ásia e na região do Pacífico e outras 265 milhões vivem na África Subsaariana. Na América Latina e Caribe, esse número é de 53 milhões de pessoas. Em 2008, o total de desnutridos tinha caído de 963 milhões para 915 milhões. O motivo foi uma melhor distribuição dos alimentos. Mas com a crise, o quadro de fome no mundo voltará a se agravar. Segundo a estimativa da ONU, um milhão de pessoas deverão passar fome no mundo nos próximos meses.

Dá pra chorar com essa notícia se estiver de TPM.

Enquanto isso, ouço os bankers do meu dia a dia falarem que a salvação da África seria sua entrada no mercado global de consumo. Pra terminar assim: roubando (vai dizer que as mil e uma taxas que pagamos não são um roubinho consentido?), enchendo o cu de dinheiro e falindo. Eles negam veementemente o novo paradigma que vai ter que ser posto em prática muito em breve: o do não-consumo. O planeta vai se escafeder. Será que vão sofrer?