Amor, promete pra mim
Que a gente nunca vai morar na Chácara Klabin?
Arquitetura Neoliberal (ou Como devastar uma cidade sem bombas)
Espetacular amarração de vários pensamentos sobre a cidade grande – aposto que muitos deles já passaram pela sua ou pela minha cabeça. Recomendo ler na íntegra, não é muito maior do que os trechos colados aqui embaixo.
Se a cidade de São Paulo foi chamada pelos modernistas de 22 de autofágica, renovando-se através de um contínuo processo de destruição criadora, a metáfora mais apropriada hoje em dia talvez fosse a de cidade-metástase, onde bairros inteiros são destruídos para dar lugar a megacondomínios isolados e auto-suficientes, e ruas cheias de vida dão lugar a ruas mortas.
As ruas, antes espaços de sociabilidade e de convivência, agora estão imundas, pichadas, inseguras, inóspitas e sem vida, tornaram-se apenas local de passagem.
Hermética separação com o mundo exterior através de uma variedade de barreiras físicas (a chamada arquitetura do pânico), e conseqüente ausência de diálogo com o entorno; rígida segregação social e funcional – tais empreendimentos são exclusivamente residenciais e voltados exclusivamente para as classes mais abastadas; utilização de enormes espaços urbanos para a moradia de uma quantidade pequena de pessoas; privilegiamento do acesso por automóvel em detrimento do acesso de pedestres, grande destaque dado ao automóvel em geral, com generosa oferta de vagas de garagem; uma tentativa de se destacar do entorno, de chamar a atenção, de aparecer, tanto através de seu tamanho conspícuo, como através de fachadas vistosas e empetecadas no chamado estilo “neoclássico”, que também buscam conferir uma pretensa sofisticação ao imóvel e seus ocupantes; oferta de uma prodigiosa gama de “amenidades” – algumas de utilidade duvidosa – aos seus ocupantes, com a pretensa finalidade de tornar o GVL o mais auto-suficiente (e portanto independente da cidade) possível, todas elas com nomes em inglês ininteligíveis para mortais comuns, tais como “day care”, “fitness center”, “garage band”, “kids room” “teen lounge”, “dog space”.
Grades, seteiras, fossos, lanças e arames farpados que remetem a uma imagem medieval complementam-se com equipamentos de alta tecnologia, como câmeras, sensores infravermelhos e torres blindadas.
É de se perguntar até que ponto esse tipo de vida tem relação com o surgimento de monstros como os adolescentes da Barra da Tijuca, todos eles moradores de condomínios de luxo, que espancaram – por diversão – e roubaram uma jovem que trabalhava como empregada doméstica num desses condomínios. (…) Na verdade, quando as pessoas têm noções frágeis de interesse público, responsabilidade pública e respeito pelos direitos de outras pessoas, é improvável que venham a adquirir essas noções dentro dos condomínios. Pelo contrário, a vida dentro dos universos privados só contribui para enfraquecer ainda mais suas noções de responsabilidade pública.
Os guetos verticais de luxo estão dentro das cidades mas não fazem parte delas, estão de costas para elas, estão em permanente conflito com elas. Procuram sugar o máximo possível das cidades sem dar nada em troca a não ser problemas ambientais, congestionamentos, medo, insegurança, abandono do espaço público e caos – em outras palavras, uma relação parasitária.
A bolha imobiliária de São Paulo, que consagrou a arquitetura e o urbanismo neoliberais, tem data de nascimento determinada: a aprovação do atual Plano Diretor, no final de 2002. A licenciosidade urbanística autorizada, incentivada e exaltada por esse Plano e que merece ser qualificado, na melhor das hipóteses, como ultraneoliberal, chegou a níveis tão prodigiosos que uma das tímidas medidas ensaiadas pela atual administração para abrandá-los (e que sequer chegou a ser aprovada), determinava que megacondomínios com mais de 50.000 m² teriam que abrir ruas públicas em seu interior.
Na verdade, o neoliberalismo consiste na volta da lei da selva, da lei do mais forte, que no caso é aquele que tem mais dinheiro: os privilégios de uma minoria se sobrepõem aos direitos individuais e coletivos da esmagadora maioria, em resumo, os que estão em cima pisam nos que estão embaixo. Isso vale inclusive para a relação dos donos do poder e do dinheiro para com a classe média, cujo poder também se viu esvaziado pelo neoliberalismo.
Das 10 ações com maior queda em 2008, três são de construtoras. Avassaladas por um nível de endividamento impagável, e assistindo ao mercado consumidor desaparecer como uma miragem, várias delas agora se encontram a um passo da falência – para citar apenas um exemplo, uma delas, responsável pela destruição do mais importante casarão do bairro de Vila Mariana, situado na R. Vergueiro, e que num gesto de marketing desesperado, apregoa como tábua de salvação sua compra por um ex-bilionário espanhol – falido. E num gesto tipicamente neoliberal, elas que pregavam a não intervenção do Estado em seus assuntos (a não ser, é claro, para beneficiá-las), agora clamam por pacotes de ajuda do governo, contando com a eterna boa vontade para com eles de seus amigos (leia-se serviçais) no Executivo e no Legislativo.