[post escrito no ônibus]
Tô aqui saindo do Ibirapuera, de um bate-papo com o Ney Matogrosso. Eu acho o Ney (para os íntimos) uma figura especial. Ele é polêmico, controverso e questionador da ordem, mas sem ser mala, e tá sempre inovando em sua arte. Criatividade é uma característica que prezo nas pessoas, obras, instituições, nos produtos, serviços, na prima do cachorro da vizinha e em todo o resto, acho que só seres pensantes podem ser criativos.
Era a abertura de um evento ligado a moda. Poderia ter sido bem pior, mas o Ney é tão interessante que eu e a plateia ficamos compenetradas ouvindo ele falar sobre o processo de criação de seus figurinos e performances. Por acaso (ou não), hoje é o primeiro dia de Féshion Week. Tá lá a Bienal bombando de ricos e famosos, trendsetters, itgirls e übermodels.
A moda é um treco que pode ser legal. É inegável que nossas roupas denotam um pouco (muito) do que somos. É legal usar peças criativamente, ousar nas combinações de vez em quando, poder fazer escolhas baseadas no nosso humor do dia – em suma, a moda é mais um microuniverso de possíveis expressões e experimentações, só que em pedaços de pano que nosso corpo carrega pra onde for.
Duro é toda a exploração mercadológica, o consumismo. Claro, como quase tudo hoje em dia. Quão deprê são aquelas pirralhas de 17 anos de chapinha, blush rosa e salto agulha fluorescente afundando na terra do Ibirapuera? Por deus, quem aguenta isso ainda? É só cópia. Nada se cria, tudo se copia sem a menor reflexão. Se ainda fossem cópias conscientes…
Ok, a pós-modernidade taí e é isso mesmo, é o predomínio da forma sobre o conteúdo, qual a novidade nisso, Laura? Nenhuma, tanto que se encaixa perfeitamente na pergunta que me fizeram outro dia e ficou me martelando: “e aí, tem beijado muito na boca ultimamente”?
A pergunta por si só já é meio esquisita, tipo, o que será que esse “muito” significa quantitativamente pra essa pessoa? Será que, para ela, o ultimamente tem alguma relação com o passado, ou o anula? Estranhíssimo. Tenho dificuldade pra fazer generalizações, sou assim desde pequena. Masss, como devo fidelidade incondicional e simpatia integral à figura em questão – ele é meu cabeleireiro! -, fiz um esforço e respondi: “não”.
“Nããão? Cooomo não? Por quê?”- É foda quando minha pergunta favorita se volta contra mim…
Ainda tentei explicar, mas logo vi que quanto mais eu tentasse, mais palavras de sabedoria viriam – as pessoas estão com a mania irritante de dar conselhos pra qualquer dileminha que você comenta, já repararam? Às vezes até eu mesma me pego nessa bad trip, e no meu caso acho que é pior, porque é um paradoxo ao meu problema com as tais generalizações!
Acredito que pessoas também sofrem da síndrome do nada se cria, tudo se copia, e se você é relativamente seletivo nos seus relacionamentos, fica difícil “beijar muito na boca”. Qual a porcentagem de moderninhos que conhecem a banda nova do underground da Eslovênia, vão na balada nova da Barra Funda e têm pensamentos e julgamentos mais quadrados que os da minha avó? Eu chuto uns 90%.
O ponto não é ser quadrado. O problema mesmo é não se assumir, reforçando esse predomínio da forma sobre o conteúdo. Acho que cada um deve, ou deveria, se sentir livre pra ser o que é. Ser careta tem sido até mais aceito na nossa sociedade, olha que maravilha! Nunca entendi porque os hippies de butique da minha ex-instituição de ensino são super libertários nas festinhas, mas mais retrógrados ainda na hora de ficar com medo de ligar pro cara no dia seguinte, por exemplo.
No fim das contas, acho que existe sim um conselho legítimo, um único, que se pode dar a alguém. Sem pieguices, eu diria tanto aos caretas como aos prafentex, assumidos ou não: o lance é fazer o que o seu coração manda de verdade, seja lá o que for. Mas primeiro tem que aprender a escutá-lo direitinho!